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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Distorção de Valores: exemplo 1



U
m renomado Programa de televisão, da TV brasileira, exibe uma série de reportagens (um quadro) chamado de “Vai fazer o que”? no qual “avalia” a insatisfação, ou não, das pessoas, diante d’alguma situação de “maus tratos a animais”; mas veja-se que maus tratos são esses: um cão (ou uma cadela) amarrado a um poste de luz (ou algo parecido), na orla de uma praia, num calçadão; um suposto dono ou dona (raivoso) a lhe jurar que o deixaria ali mesmo, porque ele só lhe dava prejuízos, só lhe fazia raiva, porque ele latia muito, rasgava os estofados e as almofadas, blá blá blá.... 
Algumas pessoas passavam e não davam atenção, afinal tinham compromissos mais importantes, outros observavam melhor, se aproximavam, tomavam parte da situação e do conflito, ali forjado. Quando alguém intensificava a defesa ao pobre animal o(s) repórter(es) saíam e explicavam se tratar de uma “brincadeira”, bem como parabenizavam o(a) “defensor(a)”...
Ora, só podia ser uma brincadeira! O que mais poderia ser? Pois, no nosso país, especialmente, há tantas barbaridades (sendo cometidas em cada esquina e a cada segundo) que, se importar com um cão, aparentemente saudável e feliz, amarrado num poste de luz, na orla de uma grande cidade, só se configuraria como uma brincadeira; e cá para nós: fazer parte dela é ridículo! 
Porque parece que se está falando de direitos (ou se quer falar); mas de quem é esse direito? Ou será que quer se tratar de valores? Mas, quais? E para que, ou quem?
Dia a dia trafegamos nas ruas, sobretudo (das grandes e das pequenas cidades) e encontramos, tropeçamos em pessoas em situação de miséria, jogadas ao chão sem dignidade nenhuma, numa condição inferior a situação daquele cão mostrado na referida reportagem. E o que fazemos? Absolutamente nada, pois já inculcamos que é normal: milhares de pessoas precisam penar, viver em situação subumana, sem valores, dignidade ou direitos vividos, nem mesmo reconhecidos. Muitas vezes, trata-se de “famílias” inteiras, nas quais os bebês servem de isca para se pedir de esmolas. São “pessoas” que agonizam pela sobrevivência e são tratadas como ratos, imundície, escória da sociedade, de uma sociedade de extremos avessos. Junto com esses “humanos”, animais sem raciocínio dividem o ambiente e competem por comida, por espaço para passar a noite; são gatos e cães, pombos e ratos, vermes e germes etc. Todos numa condição precária, de subnutrição, de ausência de direitos e dignidade de vida comum, na perversa cadeia alimentar das cidades. Mas nós não olhamos para nenhum deles: pouco nos importa se é um homem, uma mulher, uma criança (famintos, sujos, deseducados); se é um (ou um grupo) de cães sarnentos, magros, sujos; se são gatos feios, de pelos sujos, olhos remelentos; se são pombos hospedeiros de doenças, como os ratos... Nada fazemos, não importa se estamos na cidade, ou no campo, nos pequenos povoados. Porque mesmo nesses locais de menor população, agonizam vidas de homens e mulheres, animais (como éguas, burros e outros) carregam cargas como se fossem imortais e plenamente robustos, como se merecessem apenas servir... 
Então por que uma meia dúzia de pessoas se importou com aquele cão, mostrado na reportagem, que sofria uma espécie de bullying[1] animalesco metropolitano? Pois nada ele sofria, aliás, nada ele sofreu, sua expressão canina de animal, a todo o momento, era de sinceridade, de certeza que não sofria maus tratos; os humanos, por sua vez, se equivocaram bastante: precisava-se ter visto que o problema estava no ator, que interpretava a cena!
Mas, este texto se abre com um termo (dentre outros) sempre em voga: valores. Talvez eu queira dizer com isso que estamos cotidianamente e constantemente atribuindo valor ao que não merece, ou ao que não o requer; e rebaixando (em nossos pensamentos e atitudes) aquilo que mais precisa ser valorizado: o ser humano!
E para fechar, o óbvio: eu mesmo estou escrevendo este texto, mas nada faço para ajudar a um mendigo, ou para tirar a cangalha do lombo de um quadrúpede! Sem essa de estou fazendo a minha parte; enquanto o Estado cruza seus braços, cheios de braceletes reluzentes!

JaloNunes.

[1] Exatamente o bullying; o que não existe, de fato! É apenas uma construção mental; uma inculcação social.

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